Foto por Dan Farrell no Unsplash

Poderia perder o dia mirando-a
Como a uma tela de beleza incógnita
Não seria uma perda.

Poderia te mergulhar em meus ouvidos
Como a uma canção no repeat
Não morreria afogado.

Poderia contemplá-la ad aeternum
Como a um filme favorito
Não fartaria da reprise.

Poderia admirá-la perdidamente
Como a uma Vênus de Milo
E te diria diuturnamente je t’aime.

Poderia construir um Partenon
Para louvá-la, ó Atena!
E valeria a pena.

Poderia ler teus olhos
um sem fim de vezes
Como folheasse uma obra-prima
E faria deles uma rima.

Poderia convidá-la a uma valsa
Fazer do mundo nós dois sós
E sonharia hasta el infinito.

És a oitava arte
A mais primorosa
Una e insondável
A qual não desvendo
Na qual tento imergir.

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Foto por Austin Neill no Unsplash

Às vezes me sinto rodeado de monstros marinhos
Em meio às grandes navegações do século XV
De tanto perder a direção
o norte capota da bússola
A formiga perde o rastro
Já tão acostumada à senda de feromônio…

Mas perfume de livro recém-nascido seduz
Árvores morreram por aquelas letras
Nomadearam para além das raízes
como as grandes navegações do século XV
Apenas para você ter na boca
o gosto dessas palavras
que depende do paladar dos olhos
Uma árvore morreu doando seus órgãos
a algum estranho que vai dissecá-los
folha por folha…

Onde estávamos mesmo?
Vês? Já me perdi outra vez!

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Foto por Josafá Vilarouca no Flickr

As mãos cozem, cozem, cozem
A testa sua à beira do Tártaro
A renda é pouca
para coser zíperes
na porta dos dentes
A renda é pouca
não dá para um agulhinha
Feijão de corda
para amarrar a boca
do estômago
já por um fio.

A renda é pouca
não deu para pagar
a carne sovina
Vai pois um viés
de ave cozida
para adornar as papilas
No prato havia nada
Na dispensa
havia menos
Ralos botões não perecíveis.

A lama da gênese
reboca a boca
do mais novo
escorrendo no pomo de Adão
Ali não se via paraíso.

Lenha e tijolo
Panela no fogo
bordando a fome
Costelas à mostra sob a pele
É que o estômago não é forrado
Aí come o que der na telha
A renda é pouca
para cerzir as pregas
intestinais.

Fome tem dedos descarnados
que nos cosem, cosem, cosem…

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Adriel Alves

Adriel Alves

Poeta e escritor. Integrante do portal Fazia Poesia. Instagram: @purapoesiaa. Gostou do conteúdo? Se inscreva no link: https://adriel-alves.medium.com/subscribe