Foto por Alexandru Acea no Unsplash

Como um poeta
Um cientista da palavra
As disseco, minucioso
Para entender as entrelinhas
Que costuram sua alma
Experimento, duvidoso
De que seu cerne se aproxima.

Molhamos apenas os pés
na margem da palavra
Sua profundidade abissal
está onde os olhos dormem
As tripas das palavras me digerem
E tenho fome de ser devorado.

Quem vê palavra
com o olho da razão
não despe sua veste
não a vê nua e crua
não se seduz por esta Vênus.

O poeta é um apaixonado
Captura faíscas ao vento
Para engendrar incêndios
Só os que se queimam nesta pira
não terão moedas sobre os olhos.

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Há uma flor que desabrocha
E há uma flor que chora
sobre seu próprio ocaso
Aí está o dourado
Entre a pétala esplendorosa
E o triste fim duma rosa
Onde a vinda
acompanhada de riso
e a partida
acompanhada de sal
dividem o lençol
Entre um ocaso e outro
haverá uma aurora
Não é então a flor um sorriso?
Uma felicidade breve que brota
E recessa feito espuma marinha
E aguardamos com ânsia a volta…

O sol tem um milhão de quilômetros
Mas tão imensa é a grandeza duma flor
Que o sol se apequena
para caber num botão.

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Estamos morrendo
Nascemos a contar
a hora do óbito
Cada batida relógio
Um segundo a menos
Devoramo-nos
Fatia por fatia
A vida aniversaria
e o primeiro pedaço
vai para a morte
e seu infalível múnus
A cova anda atenta
Perto desde o parto
E cada ar que entra
e cada ar que sai
Logo nos lembra
Aonde a gente vai…

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Adriel Alves

Poeta e escritor. Integrante do portal Fazia Poesia. Instagram: @purapoesiaa. Gostou do conteúdo? Se inscreva no link: https://adriel-alves.medium.com/subscribe