A Divina Tragédia

“Meu filho terá nome de anjo”. Após o título de eleitor obrigatório, descobriu-se um anjo caído. Izael residia em Paraíso, que do Éden possuía apenas o nome. A quebrada estava enraizada nas encostas do Monte Sinai, bairro mísero, ali as tabuletas ainda não haviam chegado. Deus era adorado nos Ministérios e a mãe de Izael tinha encontro marcado com o Senhor quase todos os dias. Fervorosa, o ínfimo que tinha nos bolsos depositava nas urnas sacras, o dízimo era o pedágio para o céu. Na casa, de paredes nuas, os tijolos chupavam a umidade e o cheiro de cimento nunca largou. Nem sempre havia comida na mesa. A comunidade se abraçava quando faltava o pão de cada dia, o milagre da multiplicação vinha da caridade. Os arcanjos, que assim se denominavam, desciam armados de fuzis morro abaixo, passeando pelas bocas para alimentá-las. A maior delas era a Boca do Inferno, de movimentação intensa, a mais visada pelos inimigos.

O maior temor da mãe de Izael era que ele enveredasse pelas sendas do tráfico, era um caminho estreito, beco sem saída. Remetia o nome do filho ao destinatário celestial, apesar de nunca ter em mãos o aviso de recebimento. Ocorre que as mãos ossudas da morte era freguesa naqueles negócios e tinha uma fome insaciável.

Cronos foi devorando seus filhos até que Izael completou dezessete. Em sua jornada breve até o fim da puberdade havia sido aviãozinho algumas vezes entre uma brincadeira de rua e outra, sem que sua mãe soubesse. Era praticamente impossível não ser roçado pelo tráfico, haja vista que era o sangue pulsante naquele organismo caótico, bem como uma das principais carreiras profissionais longe dos arranha-céus.

“Esse tal de Virgílio vai te levar pro mau caminho”. Virgílio era o mentor de Izael nas coisas do inferno. Amigo de infância, compartilharam a mesma sala de aula e as mesmas ruas. Ele, de fato, apresentou o filho da beata à temida viela. Izael, farto do mundo além de Paraíso, onde os olhares lhe dirigidos eram tortos e as oportunidades rotineiramente lhe chocavam contra o muro apalpando o seu corpo, decidiu não comer aquela maçã. O mundo que o aceitava era Paraíso, então matou a serpente.

Virgílio era Irmão e apadrinhou Izael nas leis faccionais. “Aqui o batismo não é igual ao do pastor não. Aqui só tem ovelha negra”. Após o batizado, soaram as trombetas dos anjos e renasceu o garoto sob a alcunha de Lúcifer. Izael pegou carona na barca de Caronte.

O Primeiro Círculo:

Qualquer fiapo de esperança de ir para o Céu havia abandonado aquelas almas. Profanavam o corpo com os vícios que queriam para sonhar muito além do purgatório de provações diárias onde viviam. O céu das pobres almas cabia numa pedra de crack. O limbo era os becos escuros onde deliravam os não batizados.

O Segundo Círculo:

Encontrava-se com seus Irmãos nos bailes funks, o tráfico financiava a luxúria. Difícil algo que o dinheiro não compre. Ali Izael recebeu sua primeira missão, calar a Boca concorrente. Lhe entregaram em mãos a ferramenta de trabalho, um ferro frio.

O Terceiro Círculo:

Cérbero lhe esperava à porta do inferno. Izael, Virgílio e seus Irmãos esperavam o momento do bote. O medo lambia os beiços. Aquela Boca tinha dentes afiados e uma mordida podia ser fatal. A gula era a marca da favela, serva da fome, devorava a si própria. Iniciaram a investida contra as presas. Já em sua provação inicial, Izael rasgou o quinto mandamento.

O Quarto Círculo:

Tomada a Boca, sorriam os dentes dos saqueadores, de dar orgulho à Napoleão. Milhares de tabletes e notas de real. Deus seja louvado! Ninguém dava a mínima a esta inscrição da cédula, o capitalismo é ateu.

O Quinto Círculo:

A ira materna atingiu a face de Izael. “Não quero dinheiro sujo, pode dar descarga nessa merda aí!”. Sujo não era, tinha acabado de sair da lavagem.

O Sexto Círculo:

No alto do morro, com vista para a metrópole, empilhavam pneus para a pira. A inquisição banhava os hereges com querosene, haviam infringido as Tábuas da Lei do tráfico. Borracha e carne caminhavam pelo ar.

O Sétimo Círculo:

Lúcifer foi promovido à gerente da Boca do Inferno. Armazenava e gerenciava as drogas como ninguém. Outro protocolo era cravar a violência no corpo dos traidores e policiais infiltrados. Izael, vulgo Lúcifer, era imerso cada vez mais fundo no sangue das suas vítimas, aprendeu que para respirar debaixo d’água tinha que deixar o coração parar de bater.

O Oitavo Círculo:

Uma tempestade de raios contínua no horizonte alertava para um mau presságio. Aquilo lhe roubou o sossego.

O Nono Círculo:

Sentiu um frio descomunal na espinha. Um frio maior do que aquele que o habitava por dentro. Saiu do mormaço da Boca do Inferno para o ar gélido do exterior. A sua profecia implícita se concretizou. Deu de cara com a morte e a sua foice foi um calibre de M16. Armaram contra Lúcifer e tomaram a Boca do Inferno. O inferno são os outros.

Purgatório:

Para chegar ao Paraíso é preciso passar pelo Purgatório. No chão enlameado, o sangue de Izael se diluía nas gotas de chuva. Já resta comprovado cientificamente que relembramos a vida na hora da morte. O purgatório está ali atrás de nossos olhos. Devia ter ouvido a sua mãe, pensou, e não é que devíamos todos? Se viu criança no racha de rua, trocando passes de bola com Virgílio. Se viu na escola escutando os professores falando de futuros que ele nunca iria ter. Se viu adulto, recebendo um soco no estômago todos os dias. E se viu agora, tendo um último vislumbre do mundo no ponto de vista de uma formiga. Bebeu enfim a água do Lete. Perdeu sua memória e seus pecados. Esqueceu-se.

Paraíso:

“Deus viu”, é o significado do nome Izael. Não que Deus tenha visto alguma coisa, só sei que ele fechou os olhos.

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Adriel Alves

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