A Xenofobia e a Sétima Arte

Desde criança somos hollywoodizados e crescemos aprendendo a idolatrar a magia de Hollywood, logo, tudo o que afronta as fórmulas desse tipo de cinema nos incomoda. É inquestionável a importância do cinema hollywoodiano, tendo em vista que foi a mãe da sétima arte, porém no decorrer dos anos observou-se uma certa mecanização em seus filmes, tornando-se uma fábrica de clichês e fórmulas prontas para películas de digestão instantânea. Muita coisa tem sido criada com o simples propósito de ser caça-níquel. Como nunca, vemos revivals de antigas franquias ou novas versões de sucessos do passado ou ainda um novo episódio de uma sequência que se encerrou há muito tempo atrás. O material de Hollywood tem pecado em priorizar a quantidade acima da qualidade, são poucas as obras com certa substância e isso não é de hoje, vem ocorrendo há anos mas tem se acentuado gradativamente. Longe de mim também crucificar as obras que dispensam reflexões, os conhecidos filmes para não pensar, em determinados momentos esses itens de consumo imediato fazem um bem danado para uma mente lotada. No entanto, precisamos expandir as fronteiras, o cinema é um oceano e Hollywood é apenas uma gota d’água.

Um bom filme é aquele que cutuca, seja na forma de cócegas ou de espanto. Um longa-metragem excelente vai acampar para sempre em nossas mentes e o reveremos por toda a vida na tela detrás dos olhos. Pois bem, alerto aos desavisados consumidores que há uma infinidade de obras-primas além-mar: maravilhosas películas asiáticas, expressivas filmagens europeias, exóticas e únicas obras cinematográficas latino-americanas, ricas histórias indianas e por aí vai…

Ainda há um imenso vão por parte da sociedade quanto à aceitação de filmes e séries estrangeiros, principalmente por parte dos norte-americanos, justamente por toda a vida terem consumido filmes produzidos na própria nação, sem precisar se ater às legendas ou dublagens. Até hoje, as obras estrangeiras não geram a repercussão merecida nos Estados Unidos, tanto que se criou uma cultura de produção desenfreada de remakes de filmes de sucesso de outros países. Como exemplo, podemos citar o fabuloso longa-metragem sul-coreano Old Boy, que ganhou um desnecessário remake americano, que falhou miseravelmente em captar a essência da filmagem original. Esse é o problema das refilmagens, muitas vezes transformam o espetacular numa coisa vazia e sem propósito. Tudo isso para satisfazer a plateia desinteressada e preguiçosa, desestimulando a desbravar o oceano do cinema.

Ainda não me conformo com o não reconhecimento devido pelas academias e pelo público de obras-primas como, por exemplo, o filme brasileiro Cidade de Deus e o francês O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Apesar de inseridos na cena cult por serem verdadeiras pedras preciosas, não se fala deles com tanto prestígio como se fala de O Poderoso Chefão e Laranja Mecânica, por exemplo. E como estes injustiçados têm muitos por aí, diamantes ofuscados por elefantes brancos, joias que a grande crítica não quer pôr nos dedos pelo simples fato de não terem sido paridas por Hollywood. Apesar de morarem em nossos corações, seria fantástico vê-los no panteão do cinema.

Para nossa esperança, com o advento da Netflix, todo o cenário mudou, aos poucos fomos dando um pequeno passo para fora da calçada da fama. Como diria Neil Armstrong: “Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”. Deixamos nosso planeta para explorar o universo. A Netflix democratizou o mundo dos filmes e das séries, fornecendo um cardápio diferenciado de nacionalidades sem fim, um delivery para todos os gostos. Graças a isso, pudemos presenciar o feito inédito conquistado pela série sul-coreana Round 6, ao se tornar a série mais assistida de todos os tempos na plataforma de streaming. Quem algum dia imaginou que uma produção não norte-americana pudesse alcançar tanta glória num meio tão homogêneo como a indústria do cinema? E como não lembrar também da histórica premiação do Oscar onde a Coréia do Sul brilhou ao ganhar o prêmio de Melhor Filme com Parasita de Bong Joon-ho. Ao empunhar a estatueta o diretor Bong Joon-ho nos agraciou com uma frase verídica: “Quando vocês superarem a barreira de dois centímetros de altura das legendas, serão apresentados a muitos outros filmes maravilhosos”. Foi uma bela cutucada no olho do epicentro filmográfico. Em mais de noventa anos de história do Oscar, nunca um filme não falado em inglês havia levado o prêmio de melhor filme. Podemos dizer que esse foi o pontapé inicial para derrubar esse desnecessário Muro de Berlim. Já passou da hora de pôr abaixo o regime autocrático hollywoodiano.

Podemos citar vários exemplos de obras de diversas nacionalidades que penetraram no gosto popular por meio das plataformas de streaming. A produção espanhola La Casa de Papel ficou tão popular que rendeu a renovação de diversas temporadas. A excêntrica série alemã Dark também foi vangloriada por sua maravilhosa complexidade e originalidade. A série francesa Lupin também alavancou grande sucesso se tornando uma das mais vistas da Netflix. O filme turco O Milagre da Cela 7 arrancou muitas lágrimas com seu drama ríspido e também alcançou o grande público. Tudo isso demonstra que uma vez derrubada a barreira da língua e das legendas, uma vez apreciado o diferente sem preconceito, só temos a ganhar com as experiências únicas plantadas pelos cinematografistas forasteiros.

O cinema estrangeiro está avançando aos poucos para dentro de um território restrito, colonizando espaços antes inimagináveis. Ainda observo bastante reações xenofóbicas quanto a tudo que não é enlatado pela Terra da Fama, especialmente contra produções asiáticas, como as japonesas, sul-coreanas e chinesas. Por isso, fico feliz de ver atualmente os doramas, como são denominadas as séries coreanas, ganhando cada vez mais espaço, quase sempre emplacando no top 10 da maior plataforma de streaming do mundo. Sonho que futuramente não haverá mais distinção entre o que foi produzido na americana Hollywood ou na indiana Bollywood ou na coreana Hallyuwood. A arte é livre e triunfará acima de qualquer barreira, o cinema é universal e fala todas as línguas. Deixemos de julgar os livros pelas capas e assim teremos uma vastidão de conteúdo para mergulhar e se emocionar.

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Adriel Alves

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