Cadeira na Calçada

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É uma cena em extinção nos tempos modernos. Fulano, Beltrano e Sicrano a postos em suas cadeiras de plástico, como pilotos de fórmula 1 aguardando a largada, embarreirando a calçada para ver o movimento. Armados de uma língua afiada de pronto a apunhalar os desavisados transeuntes pelas costas. A rua é uma selva e os fuxiqueiros são dotados de olhos de águia para fisgar o menor dos defeitos dos pedestres, procedendo até à contagem dos fios de cabelo destes para elencar os mais calvos do bairro. De repente, estão fofocando sobre as gordurinhas extras da Dona Carminha, supondo inclusive o que lhe desceu pelo estômago do café da manhã até a ceia. Mudam de pauta como trocam o canal da TV, velozes e inconscientes, ora praguejam contra o clima que odoriza seus sovacos com o mais leviano bodum, ora como o preço de algum item perfurou a estratosfera e seus bolsos.

Fincar uma cadeira na calçada de casa para virar espectador da rua é um hábito curioso e peculiar. A vantagem, de encontro à televisão, é a imprevisibilidade, tudo pode ocorrer no meio da rua, uma terra sem lei. Se der sorte, verá um tombo de camarote, ou flagrará às claras um namoro às escuras, ou ainda fuçará uma mudança que lhe forçará a elaborar teorias quânticas acerca do motivo de estarem chegando ou saindo da vizinhança… As variáveis são incomensuráveis.

Ao fim do expediente, bêbados de sono, Fulano, Beltrano e Sicrano levantam os traseiros dormentes e se recolhem às suas respectivas residências, onde irão recarregar as pilhas para no dia seguinte montar patrulha novamente.

A cidade grande tem engolido essa pitoresca atividade. As pessoas erguem muralhas da China e as coroam com cercas elétricas ou de arame farpado ou ambas. Alcatraz vira um cercado de bebê perante a opulência dos imóveis de segurança máxima. Antigamente era possível vislumbrar por cima das muretas as vovós de camisola regando suas plantinhas. Os portões das casas eram baixos ou vazados, deixando à mostra a rotina dos moradores. Hoje, os portões robustos, os muros titânicos com câmeras instaladas e guaritas automatizadas e os sensores de luz vieram para ficar, sob o pretexto de proteção contra a violência das ruas. Ironicamente, essa parafernália toda vai na contramão do efeito desejado, os furtadores agradecem a privacidade que as muralhas lhe fornecem uma vez que as ultrapassam. Para que servem os muros enormes então? Para apartar, diminuir e oprimir, talvez. Escancaram a desigualdade e enchem a boca da solidão, são uma venda no olho da rua. Talvez estejamos andando de costas, retrocedendo no convívio social sem perceber os perigos. Ainda é possível ver Fulano, Beltrano e Sicrano em algumas ruas por aí, mas é como encontrar um tigre-de-bengala. Torço para que num futuro não muito distante ponham abaixo essa ditadura mural e lotem as calçadas de cadeiras, e a cidade florescerá!

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Poeta e escritor. Integrante do portal Fazia Poesia. Instagram: @purapoesiaa. Gostou do conteúdo? Se inscreva no link: https://adriel-alves.medium.com/subscribe

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Adriel Alves

Adriel Alves

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