Como Se Fosse a Primeira Vez

cronica adriel alves tempo como se fosse a primeira vez

Sinto falta do gosto das primeiras vezes, é tão chato “saber de tudo”. Tenho saudade do gosto de descobrir uma amizade, do borboletar no estômago, de descobrir o medo de navegar em mares virgens, de sentir no paladar pela primeira vez um sabor e achar que nada poderia superá-lo até o próximo prato inédito; de ouvir uma música de eriçar a pele e achar que nenhuma outra poderia ser tão majestosa até o próximo arrepio engavetar a tal canção canonizada…

Por vezes questiono por onde deixei cair o fogo que empunhava em meu cerne, aquela chama que se espalhava por tudo que visse ou tocasse. Acho que, como uma vela, vamos aos poucos abrandando o calor até alcançar a mornidão e por fim o rigor mortis, a imobilidade do gélido. O inferno é frio. As crianças são incêndios, acendendo pavios de risos por onde passam e se alastrando pelas coisas de forma imparável. Os adolescentes já perdem um pouco desse fogo grego, algum vento já destinou uma faísca de sua chama ao léu. Seu paladar já provou e enjoou de alguns sabores de primeiras vezes. Os adultos, pobres coitados, carregando seu mundo e o mundo dos outros nas costas, só poderiam sofrer de uma dor interplanetária. A sua labareda se reduz a um fiapo que sussurra como um silvo de ventania, tentando em vão resgatar do inverno o fadigado soldado. Nos adultos, as primeiras vezes estão trancadas em baús soterrados no âmago, embaixo de todo o amargo que têm que engolir. Os melhores remédios não são os fármacos, são as coisas que fervem e adocicam.

Após a flor da idade, catalogamos uma nova espécie de primeira vez, a indesejável. É quando a morte toca em nossos ombros e deixa uma lembrancinha. É quando alguém que amamos pega o último ônibus até a linha final e não retorna mais nosso contato. É quando descobrimos que a imortalidade juvenil não passou de um sonho bom e somos intimados da sentença irrecorrível do efêmero, juiz imparcial e impiedoso.

Se me concedessem um desejo, seria este, poder me agraciar novamente com o tempero gostoso das primeiras vezes, esquecer da monotonia e do cansaço de estar já tão farto das coisas a ponto de não tocarem mais aquele trecho entre a alma e a carne, a ponto de etiquetar tudo com o banal, que faz tudo perder a sua valia. Ah, como eu queria voltar a ver tudo com outros olhos, aqueles olhos velhos conhecidos que vislumbravam além do horizonte e hoje estão míopes. Gostaria de tudo como se fosse a primeira vez, tomar-me de tremores e sensações à flor da pele, florescer em todas as estações. Eu sei que a primeira vez está aqui, em algum lugar bem perto, brincando de esconde-esconde, bem debaixo de nosso nariz, apenas esperando uma chance para inspirar, de novo, novos ares.

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Poeta e escritor. Integrante do portal Fazia Poesia. Instagram: @purapoesiaa. Gostou do conteúdo? Se inscreva no link: https://adriel-alves.medium.com/subscribe

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Adriel Alves

Adriel Alves

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