Mártirio do Tempo

O flashback que o atormentava todas as noites voltava à tona. Caminhava pelo corredor, ouvindo estranhas vozes vindas do andar de cima, seguiu em direção aos ruídos; escutou um barulho na sala de estar e apressou os passos. Chegando ao local, encontrou sua mãe deitada no chão com o pescoço em um ângulo estranho, os olhos tão sem vida como os de uma boneca. Olhou para cima e avistou um vulto que rapidamente escapou daquela cena, fugindo. Não teve forças para persegui-lo, apenas pôs-se a se ajoelhar ao lado do corpo da mãe e caiu em prantos.

Um homem velho, barbudo, magricela e em trajes estranhos, observava com um olhar tristonho uma foto em preto e branco; nela sorria uma linda mulher de cabelos negros, que emanava vida através de seu sorriso. A pouca luz do ambiente vinha das frestas das grades de metal enferrujado, pouco acima da cama de madeira do velho; as paredes rústicas de pedra tornavam aquele lugar tão cinzento quanto a fotografia. Já completara um ano que estava naquele imundo aposento de prisão, convivendo somente com a própria sombra e com a foto daquela mulher.

O doutor Steven Mallet havia criado a primeira máquina do tempo, seus experimentos estavam além de sua época. Ele resolveu ser a primeira cobaia daquela revolução científica, programou suas ações de tal forma que soubesse passo a passo o que realmente ocorreria ao regressar no tempo e se voltaria ao presente com êxito.

Havia tratado de planejar todos os procedimentos, anotando cada detalhe em um caderno já bastante rabiscado. Para isso tinha contratado um assistente de confiança, o qual cumpriria estritamente suas ordens, excluindo todos os outros cientistas da operação final.

Sabia das consequências, das variáveis, do óbito em caso de fracasso; mas, se obtivesse sucesso em sua experiência, seria o maior cientista de todos os tempos, iria revolucionar o mundo e quem sabe até o universo.

“O tempo, a quarta dimensão, ele flui como as ondas do oceano, cresce e retrocede. O universo; existe apenas um? Obviamente que não, o tempo rege paralelamente as várias dimensões existentes. Enquanto eu estou aqui, escrevendo esta carta, um outro eu pode estar na rua pedindo esmola, um outro eu pode estar morto… “Controlando” o tempo, não saberei onde irei parar. Talvez me encontre com eu mesmo, e esse eu me mate, ou talvez só exista um eu em várias realidades. Podem existir várias dimensões, mas tempo existe um só. Terei certeza de tudo isto apenas quando entrar nesta máquina”, lembrava-se de tudo que havia escrito em sua carta.

Abriu a válvula que levava ao interior da gigantesca aparelhagem, percorreu um corredor ultra silencioso e hermeticamente fechado que levava a outra porta vedada em aço e alumínio, digitou uma sequência numérica em um painel eletrônico e liberou a sua entrada para dentro de uma cúpula metálica, em seu centro havia uma poltrona reclinada rodeada de botões e dispositivos. Apanhou a veste que havia criado especialmente para aquela ocasião, um traje semelhante ao dos astronautas, porém mais justo e sem capacete. Já dentro da cúpula, pressionou um quadrado vermelho na parede e deu o sinal para o assistente iniciar a operação através de um comando de voz. Podia ver, através de micro monitores anexados à cúpula, seus últimos vislumbres do que seria a realidade como conhecia, seu ajudante encontrava-se concentrado na preparação da primeira viagem no tempo da história, prestes a conhecer a maravilha mor da ciência.

O processo começara. Inicialmente, a câmara, selada por um metal muito resistente, começou a vibrar bem forte, causando náusea no cientista. Controlando-se para não vomitar, pensou em coisas fúteis, como sua vida depois daquilo: seria o ser humano mais importante do mundo e o homem mais influente de todos os tempos, abriria novos horizontes. A câmara sacudia intensamente, o medo se instalava em Mallet, algo não cheirava bem e seu instinto o alertava do perigo, a sala parecia se comprimir ao seu redor, ele teve a sensação de que todo o metal estava vivo, distorcendo-se e querendo agarrá-lo.

— Craven! Está me ouvindo!? Envie um sinal de voz se estiver me escutando! — Gritava o doutor.

O silêncio foi a resposta, podia-se ouvir somente o ranger dos metais que começavam a se amassar e a tremer com mais força.

— Por Deus! O que está havendo!? Craven! Consegue me ouvir!? — Suava frio, embora sentisse o corpo queimar por dentro, o ácido estomacal ameaçava escalar a sua garganta.

O pânico fazia com que o coração de Mallet batesse aceleradamente, a adrenalina fluía pelo seu corpo. Ele transpirava como um atleta esforçado após atingir seu limite, mesmo estagnado em uma cadeira confortável.

— Por favor… Craven… me escute… — Já não conseguia mais gritar, o ar era rarefeito, a garganta cerrava. De olhos fechados, atacado pelo mal estar, se esforçava até para sussurrar.

Quando abriu os olhos, viu algo esplêndido e um sorriso voltou aos seus lábios, olvidou-se de tudo. Podia ver uma série de acontecimentos, de cenas, podia observar tudo, milhares de microfilmes alternando-se entre nano segundos, minutos, talvez até estendendo-se por anos. Mallet sentia-se como Deus, tinha o controle de tudo, podia manipular tudo aquilo, sabia que podia. Observava o Cristo Redentor, uma mulher linda sorrindo, o oceano, macacos, imagens indefinidas de seres estranhos, minhocas, tudo isso girava como se estivesse em uma grande panela cheia de sopa de letrinhas sendo remexida por uma colher de madeira. O melhor filme que Steven já havia assistido, com toda a certeza. Esticou os braços em direção àquele turbilhão de vidas, queria encostar as mãos naquela roleta de fundo negro, onde tudo se concentrava; toda a realidade da vida… Subitamente tudo se foi.

Foi absorvido para algum lugar repleto da mais pura escuridão, pensou que talvez houvesse chegada a sua hora, que devia ter sido sugado por algum buraco negro. Suas mãos tocavam algo áspero, moveu as pernas num movimento brusco e uma luz surgiu, forte e súbita, ofuscando-o por alguns segundos. O doutor saiu de um pequeno armário embaixo de uma pia, deslizando para o chão de piso xadrez alternado entre verde e branco. Conhecia aquele lugar; a casa velha de madeira, de paredes brancas e verdes. Uma música antiga bastante calma tocava ao longe, no incomparável som de uma vitrola em seus ruídos sofridos. “Não acredito! Eu consegui! Caramba!”, suas pernas tremiam de excitação, os lábios se contraíam involuntariamente e os olhos lacrimejavam.

— Quem é você? — Perguntou uma voz feminina próxima.

O cientista virou-se seguindo o som, estava diante da própria mãe; tão jovial, os cabelos fortemente negros e os olhos cor de mel; nunca pensou que um dia poderia vê-la novamente, aquela mulher que se foi quando ele era apenas uma criança. Ela emanava uma energia vital tão abundante, que fazia palpitar o coração do velho e descabelado cientista. Um largo sorriso estampou-se na face desgastada de Mallet, um riso puro, diferente de todos que já teve. Adiantou-se com os braços estendidos, pronto para abraçar sua progenitora.

— Ei! Ei! Ei! Saia daqui! — o homem já a apertava, inspirando o cheiro da mãe para dentro de suas narinas — Ta-tarado! Tarado! S-socorro! Largue-me! Seu maníaco! — após dar-lhe pequenos empurrões, a mulher deu um pontapé nos joelhos do cientista, que caiu no carpete sentindo uma dor excruciante.

— M-mãe! Sou eu! Sou seu filho, Steven Mallet! E-eu vim do fu-futuro, vim salvar você! — Ele falava com convicção, mas naquele momento soou como uma baboseira de um maluco, aquela conversa apenas acentuava a expressão de pânico no rosto da mulher.

— Está louco!? Futuro!? Não vai me enganar só porque está com essas roupas estranhas! — A mãe de Mallet correu desesperadamente, buscando por ajuda, berrando através dos cômodos da casa.

— O que foi que eu fiz, meu Deus! — Steven levantou-se e, mancando, correu desajeitado atrás daquela que o pôs no mundo, o doutor, sempre tão ponderado, havia por algum tempo perdido sua razão, achava, no entanto, que não haveria forma de não causar transtornos naquela situação incomum.

Encontrou a mulher próxima à escada, ela descia em uma velocidade incrível, arrastando o longo vestido pelos degraus; Mallet gritou novamente.

— Mãe! Por favor! Acredite em mim! — Segurava a perna manca, a articulação do joelho latejava.

A mulher, assustada, virou o rosto para trás esbanjando um olhar esbugalhado. Neste momento, a bota dela enganchou em um bordado na lateral do vestido, desequilibrando-a. Um desastre, ele viu a morte da mãe com os mesmos olhos que a viram em vigorosa vida; o corpo rolava degrau por degrau, em sonoros baques, até bater com um ruído abafado no carpete da sala; o pescoço já quebrado, o olhar sem cor, sem energia. Mallet ficou paralisado, matara a mãe, voltou no tempo e a matou.

— Mãe? — Uma voz jovial ecoou abaixo da escadaria.

Steven olhou para a criança que se ajoelhava aos berros ao corpo da mulher.

— Mãe! Acorda mãe! Mamãe! Mamãe!

Aquelas palavras não faziam sentido, não entravam na mente do cientista. “O menino a chamara de mãe, mas eu sou o filho dela, o único filho, quem é esse garoto?”, mas ele o reconheceu, depois de um tempo a razão voltou à sua mente e ele percebeu que via a si mesmo, era ele ali, perecendo à morte da mãe, sofrendo novamente com aquela experiência traumática. O garoto olhou para a direção de Steven, que correu desesperadamente para o local de onde viera.

Abriu o pequeno armário embaixo da pia, mas não havia nada lá além de canos. Suava frio novamente, os pelos eriçavam; ele agiu instintivamente, pegou um porta retrato com a foto da mãe e disparou até a janela, o objeto escorregou de sua mão e se despedaçou; o cientista praguejou, depois agachou-se e apanhou a foto em meio aos estilhaços, abriu a janela e pulou do segundo andar. Caiu de mau jeito sobre uma poça de lama, torcendo a perna esquerda; continuou a fugir, mancando. Foi alvo de milhares de olhares que o observavam como se fosse de outro mundo, e de fato era; os que estavam em seu caminho, rapidamente se afastavam, exibindo expressões de pânico. Aquele homem sujo e esquisito logo chamou a atenção das autoridades que o abordaram e o levaram para a delegacia. Antes de colocarem as algemas em seus pulsos, ele havia escondido a foto dentro do traje.

— Seu nome? — Perguntava o homem gorducho do outro lado da mesa.

— Mallet, Steven Mallet — respondeu o doutor.

— Mallet? É parente de Sylvia Mallet? Que diabos fazia todo enlameado e com esta roupa estranha no meio da cidade?

— Não creio que vá acreditar se eu lhe disser.

O delegado bufou.

— Claro que vou acreditar Sr. Mallet, pode contar.

— Eu não sou daqui, na verdade eu venho de um lugar, digamos… mais avançado. Senhor delegado… — pigarreou — eu vim do futuro.

O gordo riu.

— Essa é boa! Essa é boa! Nunca ouvi nenhuma desculpa parecida.

Steven permaneceu em silêncio.

— Escute, Sr. Mallet. Testemunhas disseram que viram você saindo da casa de Sylvia Mallet… Ela estava morta quando a polícia chegou lá, havia caído da escada — o oficial gordo olhou para o papel onde havia rabiscado algumas informações. — O filho da vítima, que, por acaso — falou lenta e ironicamente — possui o mesmo nome que o seu, disse para nós que viu um homem estranho no local do crime e que este homem havia fugido pela janela do primeiro andar. Agora entende aonde quero chegar?

— Sim senhor, mas…

— Vamos, me diga o seu verdadeiro nome e por que matou a Sra. Mallet.

— Eu não a matei! Foi um acidente! Juro!

— Pare de gritar!

— E-ela caiu da escada porque enganchou os pés no vestido — começou a balbuciar rapidamente — tinha tomado um susto e… e depois ela…

— Susto… Certo, aham… Susto com o quê?

— Comigo! Eu, eu queria falar com ela! M-mas ela não entendeu o que estava acontecendo! — Exclamou Mallet, com os olhos arregalados.

— Você acabou de confessar o seu crime!

— Não! Não, por favor, me escute! Quando vim para cá, apareci justamente na casa de minha mãe, Sylvia Mallet, fiquei emocionado quando a vi! Meu instinto foi abraçá-la, mas ela fugiu, correu até a escada e… Tropeçou… — falou tristemente.

— Você é completamente maluco… Frank! Leve ele até a cela.

Steven balbuciou uma série de argumentos, todos foram ignorados pelo delegado e por aqueles ao seu redor. O carcereiro jogou Mallet em um cela rústica, imunda e mofada.

— Sr. Mallet? — Balbuciou Craven aproximando-se da porta da máquina gigantesca — o senhor está aí, sr. Mallet?

Não houve resposta, o laboratório estava em silêncio, a máquina havia terminado de operar, o ambiente estava abafado, o ajudante do viajante do tempo esfregava o antebraço da testa para enxugar o suor. Craven aproximou-se da grande geringonça e, hesitando, digitou o código para abrir a porta de aço inoxidável; após uma despressurização, um ruído metálico se seguiu e a abertura revelou o interior da máquina. O assistente caminhou pelo pequeno corredor até a micro sala onde se situava a poltrona em que Steven deveria estar. No entanto, o doutor não estava lá, o ambiente estava intacto. Assustado e ao mesmo tempo empolgado pelo fato de a experiência ter dado certo, Craven olhou ao redor e encontrou uma pequena folha de papel amarelada no chão, era uma carta, reconhecia aquela caligrafia, era do doutor Steven Mallet.

“O tempo, a quarta dimensão, ele flui como as ondas do oceano, cresce e retrocede. O universo; existe apenas um? Obviamente que não, o tempo rege paralelamente as várias dimensões existentes. Enquanto eu estou aqui, escrevendo esta carta, um outro eu pode estar na rua pedindo esmola, um outro eu pode estar morto…”. Parou de ler nesse trecho, “e se ele não voltar?” pensou.

Pôs a carta no bolso, deixou a máquina, a selou e, indeciso quanto ao que fazer, deixou o laboratório para ir comunicar aos outros cientistas o ocorrido.

No dia seguinte, um grupo de cientistas foi ao laboratório para examinar os dados do experimento e estudar se havia alguma forma de trazê-lo de volta. Os homens ficaram impressionados com o que viram assim que abriram a porta de entrada do local. A gigantesca máquina tinha sumido, o laboratório mostrava-se bem menor, não havia equipamentos, nem luz, havia somente mesas e cadeiras empoeiradas; um ambiente abandonado, como se ninguém jamais tivesse trabalhado ali. Pasmos com o ocorrido, olhavam uns para as faces dos outros.

No funeral de Sylvia Mallet, seu filho, a criança Steven, olhava para o caixão negro e sentia uma tristeza profunda, algo como um verdadeiro buraco negro em suas entranhas, um vazio absoluto que nenhum sentimento podia completar. As lágrimas que escorriam de seu rosto eram a melhor forma possível de expressar toda a profundidade daquele poço escuro dentro de si. O menino Steven perguntava a si mesmo e a Deus se havia alguma maneira de ter sua mãe novamente e teve como resposta o caixão descendo a sete palmos abaixo da terra…

Em seus últimos momentos de vida naquela prisão, vítima de uma doença grave, Steven Mallet teve a visão da verdade, entendeu o porquê de ter vivido todo esse tempo, o motivo de ter encerrado sua vida como um excluído do mundo. Vivera somente para matar a própria mãe, assim como o jovem Mallet também cresceria, criaria uma nova máquina, mataria a mãe novamente e morreria na prisão; num ciclo infinito, como um filme que sempre se repetiria; “a vida e o tempo são apenas ciclos, o universo é cíclico, o destino existe, afinal…” retrucou o doutor para si.

E o mundo onde vivia? O que teria ocorrido a Craven e aos outros cientistas? O que teria ocorrido com ele mesmo naquele tempo? Neste momento, Steven lembrou-se da passagem de um de seus livros favoritos: “Vá então. Há outros mundos além deste”. O velho fechou os olhos para descansar, a foto em suas mãos, imune ao tempo, mantinha a mãe sorrindo mesmo com a morte de seu filho. Ali acabava o espetáculo da vida… Ou não.

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Poeta e escritor. Integrante do portal Fazia Poesia. Instagram: @purapoesiaa. Gostou do conteúdo? Se inscreva no link: https://adriel-alves.medium.com/subscribe

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Adriel Alves

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