Morte à Eternidade!

Ergueu-se com muita dificuldade de sua cama, com as costas e os pulsos doloridos, a idade pesava sobre os ombros. Dirigiu-se ao banheiro para a primeira urinada do dia, lavou as mãos e o rosto e mirou-se no espelho. Viu na face os desenhos que o tempo esculpiu e ali à sua frente restava um ser a anos-luz de seu eu jovem, de cabelos e barba compridos, pelos prateados, olheiras fundas e rugas abismais.

Ele era uma aberração, uma coisa deslocada em seu tempo, numa era onde a carne mantinha-se sempre jovial. Tudo começou com o advento dos nanorrobôs, que se espalharam de forma universal, a invenção do século. Estavam na água potável, nos alimentos, nos eletrodomésticos e dentro do organismo de todos. Trabalhavam com a função de promover à humanidade a tão sonhada, e agora alcançada, vida eterna. O câncer deixou de horrorizar a humanidade, os tumores eram devorados pelas micromáquinas que erradicavam cirurgicamente qualquer vestígio de metástase. Os miúdos seres metálicos impediam ainda o envelhecimento das células e auxiliavam na fabricação de células novas. Além de tamanha façanha, com esses operários dentro do corpo era possível prever e extinguir qualquer tipo de doença que pretendesse se manifestar. Porém, toda luz tem sua treva.

A primeira vacinação antivelhice ocorreu há um bom tempo. Todos foram chamados para comparecer nos postos de saúde para injetar dentro de si as pioneiras remessas de nanorrobôs. No decorrer dos anos, a injeção deixou de ser necessária, pois os incorporaram na água e nos alimentos, como uma espécie de suplemento vitamínico. Todos devidamente programados para desempenhar suas tarefas de upgrade do organismo. Não tardou para que a esmagadora maioria do planeta se tornasse meio humana e meio máquina, com um verdadeiro ecossistema robótico em suas entranhas.

Os que se recusaram a aplicar as doses vacinais foram chamados de desvairados e, consequentemente, acabaram marginalizados. Ele era um deles, um dos loucos que fugia da eternidade. Se recusava a beber a água enriquecida e os alimentos incrementados com robôs. Então o tempo fez o seu serviço, entortando suas costas, atrofiando seus músculos e amolecendo sua pele. Quando saía nas ruas causava espanto, era raro ver velhos passeando por aí. Ele era um fantasma que vagava pelas ruas, um figura tatuada pelo passado que assombrava o presente.

Havia um pequeno grupo de párias que se reuniam toda semana para compartilhar entre si as mazelas da maior idade. Em suas sessões, bradavam furiosos contra o sistema que transformou as pessoas em marionetes, servas fiéis e dependentes do infinito e da perfeição. Ele, que sempre teve no sangue a revolução, foi o primeiro a sugerir medidas drásticas contra a ditadura do imortal e do perfeito. Denominaram o grupo de Apóstolos do Fim, baseado numa religião antiguíssima e já extinta, o cristianismo. O novo Deus era o próprio homem, mas por trás deste havia a verdadeira divindade: a Eternidade.

Em um de seus discursos inflamados ele arrancou aplausos e conquistou sua pequena plateia:

“Eles não querem mais que nada morra. Nós viramos plantas de plástico! Peças vazias, sem alma. A morte sempre foi necessária e a natureza sabe disso. Matar a morte é quebrar o ciclo natural das coisas e isso pode causar um estrago impensável! Se uma planta morre, ela alimenta outra planta que também morrerá e alimentará a próxima. Se uma pessoa morre, ela enriquece o solo e alimenta a vida para permiti-la novamente. Morrer é antes de tudo um propósito! Vivemos em função da morte, ela que nos impulsiona a viver; quando a vislumbramos, tocamos adiante a vida, porque só o que pode ter fim tem valor inestimável. E o que será de nós agora!? Dizem eles que venceram a morte, mas no fundo tenho certeza que eles sabem, não há como vencer a morte. Meus amigos, nós precisamos mostrar ao mundo que só estamos aqui hoje por causa de tudo que já morreu antes de nós. Vamos assassinar a eternidade! Vamos acabar com essa aberração!”.

Alguns dias depois, o momento fatídico havia chegado. Iria mostrar ao mundo que ninguém escaparia das garras sombrias da morte. Estava tudo preparado no porta-malas de seu carro. Antes de sair, olhou-se outra vez no espelho, um homem das cavernas em um futuro que não lhe pertencia. Não lhe restava muito tempo e suas tripas o alertavam disso, tudo doía. O câncer carcomia seus órgãos. Convicto, pegou a chave do veículo e partiu rumo ao destino inevitável.

“Nós criamos o nosso próprio destino. A cada escolha que tomo, colherei as consequências e também as plantarei no destino de outras pessoas. Talvez tudo já esteja escrito em algum lugar onde o tempo é apenas uma insignificância, e o que eu fiz desde que nasci me guiou a este momento. Talvez eu esteja dirigindo em direção à verdadeira eternidade, para cumprir a minha tarefa nesse script escrito pelo universo”. Monologava mentalmente enquanto conduzia o automóvel.

Havia chegado na praça central, superlotada de pessoas. Ele só precisava apertar um botão para passar a sua mensagem ao mundo, estava ao lado da ignição. No entanto, suava frio, tremia e o coração estava prestes a saltar pela boca. Então era aquele o poder da morte, o corpo pressente o abismo se aproximando e então se desespera, o desespero que nasce do medo de não saber o que virá. Mesmo com toda a evolução tecnológica conquistada, a humanidade nunca descobriu o que há no outro lado. Embora seu corpo mirrado e podre lutasse com todas as forças contra o iminente fim, estava decidido, a mente é a divindade da carne. Apertou o botão e tudo foi pelos ares.

Os fatos sobre a explosão gigantesca que estraçalhou milhares de pessoas perduraram por muitos dias nos canais de notícias dos streamings e o grande evento foi chamado de Big Bang. Pouco se sabia sobre o que motivou alguém a cometer o atentado, era impossível identificar o causador do estrago, evaporado pela bomba. Após um tempo, a notícia alarmante foi se esfriando e, aos poucos, esquecida, como uma onda depois de quebrar. A humanidade não compreendeu o recado por trás daquele ato absurdo e seguiu como se nada tivesse acontecido, embora há muito tempo a morte não assombrasse o cotidiano.

No entanto, alguns anos mais tarde, quando o Big Bang virou uma história distante, ocorreu a verdadeira tragédia. Os nanorrobôs começaram a apresentar defeito e, ao invés de proteger as células, estavam atacando-as. As pessoas tiveram seus órgãos destruídos numa morte horrenda. Foi a primeira pandemia cibernética da história. Disseram que o problema nasceu de uma pane nos servidores que se comunicavam com as máquinas. Até que as medidas de desativação e reprogramação das máquinas surtissem efeito, a maior parcela da humanidade já havia perecido. Como um tigre branco, a humanidade entrou na lista dos animais em perigo de extinção. Reaprenderia a conviver com sua velha amiga, a mortalidade. Enfim, conformado com suas limitações, o homem percebeu tardiamente que é impossível vencer a morte.

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Adriel Alves

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