O Fim do Túnel

— Acredita em vida após a morte?

— Na verdade, não… Acho que quando a gente morre tudo se apaga e a consciência deixa de existir.

— É um pensamento triste, não acha? Viver pensando que a vida não tem algo além da nossa limitada compreensão…

— Olha só esse mundo de merda que a gente está vivendo, cara. Deus está morto, como dizia Nietzsche.

Quando o soldado finalizou a sua fala, um grande estrondo estourou os tímpanos de todos, acompanhado de uma chuva de poeira e pedra. Sucessivamente, pipocos contínuos ressoaram por todos os lados. Um zumbido perpetuava em seu ouvido concomitantemente com uma dor aguda insuportável. Ao se jogar no chão deu de cara com o crânio esmagado de um dos colegas, estava com os olhos vidrados, espantado pelo encontro repentino com a morte. Mal se podia ver qualquer coisa ao redor em virtude da nuvem de pó. Sentia uma dor distante em uma das pernas, mas temia olhar para baixo para ver o estrago. Rastejou em direção a um facho de luz em meio aos escombros na tentativa de inspirar o ar novamente. A perna latejava e um líquido quente escorria por ela. Ao sair pelo buraco, puxou com vigor o ar fresco para os pulmões. A chuva de balas era incessante, pelo céu do crepúsculo passavam velozes os projéteis, como rápidas estrelas cadentes. Seria um belo espetáculo, se não fossem metais mortais e não fosse também o cheiro terrível de pólvora e os cadáveres frescos espalhados pelo chão. À medida que a adrenalina ia repousando ficava mais intensa a dor na perna, ainda não havia tido coragem de olhar. Apalpou o bolso do colete e tirou um walkie talkie.

— Fomos Atacados! Não sei informar os danos no momento! Câmbio!

Antes que pudesse receber alguma resposta, algo bateu com toda a força na parte traseira de sua cabeça. De repente, esqueceu de tudo o que estava fazendo, o seu corpo não respondia mais aos seus comandos e os sentidos aos poucos estavam desligando. O sangue escorria pelo buraco quente em seu crânio, sua hora havia chegado. Como se fosse uma eternidade, vislumbrou por um último instante todo o caos que o rodeava, tudo cintilava e se deformava e o céu dançava como A Noite Estrelada de Van Gogh. Podia jurar que os mortos ao seu redor levantavam, mas ele mesmo havia se tornado apenas uma carcaça com um derradeiro fiapo de consciência. Repentinamente, os pedregulhos deram espaço a um infinito campo verde com um céu azul límpido e, após, a flashes rápidos de pessoas queridas e até mesmo pessoas que nunca mais havia visto, assim como colegas que já tinham partido. Tudo se mesclava num caos incompreensível de beleza e terror. Então, como se alguém tivesse apertado o interruptor de tudo, o mundo apagou.

Lentamente seus olhos abriram, embora não soubesse se de fato tinha olhos naquele instante, mas progressivamente as imagens se formavam à sua frente. Tudo o que via era inimaginável: milhões e milhões de monolitos negros cravejados de luzes piscantes coloridas que se estendiam além do horizonte em um espaço que não parecia ter chão nem teto, como se tudo flutuasse mas ao mesmo tempo estivesse fincado em alguma coisa. Ali não sentia calor, nem dor nem fome ou sede, sentia-se como uma entidade, muito além das coisas materiais. Tinha a impressão de ter todo o conhecimento do mundo na palma da mão, ainda que não soubesse se de fato tinha mãos, ele conseguia ver tudo ao redor menos o seu corpo. Era um mar desconhecido e estranhamente reconfortante. No entanto, a calmaria foi abalada por uma suave voz feminina em sua consciência.

— Reiniciando a simulação em 5… 4… 3… 2… 1…

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Adriel Alves

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