O Picolezeiro

Um estudo da Universidade da Califórnia afirma que quem é infeliz na infância vive mais, acho que vou morrer cedo. Minha infância foi doce como um picolé de brigadeiro.

Lembro-me bem, apesar de minha memória de um idoso de oitenta anos, do tempo em que jogava uma pelada com a turma do condomínio. Colocávamos um saco plástico dentro do outro e ao final inseríamos o amontoado de sacolas dentro de uma meia, dávamos um nó e, voilá, estava confeccionada a nossa bola de futebol. Os garotos do condomínio eram padrão FIFA quando se tratava de organizar eventos futebolísticos. Criamos, com nosso imaginário fermentado, a Copa do Mundo do Prédio, porque o mundo cabia ali naquele terreno com três blocos. Cada pessoa representava um país, eu era o México, um time que escolhi aleatoriamente mas que, graças a esse evento, até hoje torço para ele na Copa do Mundo do mundo. Em seguida, cada participante desenhava a sua bandeira em uma folha A4 e, após, colávamos as bandeiras com fita adesiva no muro do playground. Para finalizar, enrolávamos os assentos dos balanços nas hastes superiores e tínhamos assim a nossa trave, quase do tamanho de uma trave profissional. Pronto, estava construído o estádio e a plateia não tinha muito mais do que doze anos.

As partidas eram apenas com pênaltis, não tínhamos muito espaço. Às vezes, o porteiro interrompia os jogos para reclamar do barulho e mandar desenrolar os balanços, como se a gente desse ouvidos… O vencedor tinha como prêmio apenas os louros da vitória, mas era mais do que o suficiente.

Também gostávamos de jogar na rua asfaltada em frente ao condomínio, lá fora a modalidade era travinha. Os chinelos eram as traves. A minha timidez, acompanhada de uma asma brônquica, não me permitia ser mais do que um goleiro, mas, vez ou outra, ousava ir para o ataque e ali me sentia o Pelé no Maracanã, até o peito começar a chiar.

Pois bem, de vez em quando ouvia-se um badalar de sinos se aproximando, angelical, era como o apito do árbitro determinando o intervalo para o segundo tempo. O alvoroço era grande quando o picolezeiro se aproximava. Não lembro do nome dele, era um senhor magro e de pele morena já riscada pelas mãos do tempo. Todos os garotos cessavam imediatamente a partida e o arrodeavam como pombos cercando as migalhas. Tinha picolé de brigadeiro, de coco, de castanha e tinha um que deixava a língua azul, com sabor não identificável, provavelmente um mix de substâncias cancerígenas, era uma febre. O picolezeiro tinha um bordão engraçado, toda vez que os pivetes tentavam barganhar o preço do picolé ele de pronto dizia: “Assim eu choro!”. Era difícil que cedesse algum desconto, mas se fosse seu dia de sorte poderia conseguir um picolé dez centavos mais barato. Recordo muitas vezes de subir no meu apartamento para fisgar todas as moedas que encontrasse e às vezes não conseguia nenhuma, então descia cabisbaixo vendo os companheiros felizes melando a boca e me restava ver navios. Lembro-me ainda de já ter dado calote no pobre picolezeiro: “Semana que vem eu pago!”, e nem sempre pagava. Tenho certeza que aqueles meninos levados alegraram as tardes daquele senhor, apesar dos lucros irrisórios e dos clientes inadimplentes.

Engraçado como a memória é uma ponte levadiça que só desce com o estímulo de alguma alavanca mental. Nunca esqueci do bordão do vendedor de picolé: “Assim eu choro!”, e isso me levou à saudosa memória de jogar futebol com os amigos do condomínio. Há no fundo de toda memória um carrinho de picolé recheado de lembranças doces.

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Adriel Alves

Adriel Alves

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