Poda

Adriel Alves
7 min readNov 20, 2023

Algumas plantas secavam em meu jardim, as contemplava como a um espelho. O diagnóstico que recebi no dia anterior havia podado todas as minhas flores. Eu estava como aquelas folhas, definhando… A derradeira hora chega para todas as coisas. Elas aceitam e se conformam, mas, para nós, nunca viveremos o suficiente. A rosa mais valiosa do meu jardim murchou há apenas um ano atrás. Havia prometido a ela que ainda viveria muito após a sua partida. Infelizmente, não pude cumprir a promessa…

Quando estamos morrendo, instantaneamente vem à mente o arrependimento daquilo que poderíamos ter feito enquanto tínhamos nosso bem mais valioso, o tempo. Ainda assim, acredito que o destino tenha sido bastante generoso comigo. A vida vai na contramão de nossos desejos e nos leva a caminhos inesperados que muitas vezes se mostram melhores do que aqueles idealizados por nós. Na costura torta mas perfeitamente cosida do acaso, conheci a miséria e o conforto, o amor e o ódio, a tristeza e a felicidade; é preciso conhecer as duas faces das coisas, uma encanta e a outra amadurece.

Meus filhos passaram a me visitar todos os dias quando souberam do meu diagnóstico, como se quisessem compensar o tempo em que andaram ausentes. Os entendo bem, também deixei de visitar meus pais por longos dias quando me tornei adulto. Na natureza, os filhotes dos animais, assim que terminam de ser educados pelos pais, logo se tornam independentes, muitos deles jamais verão os genitores novamente. Na natureza humana é diferente, na maioria das vezes somos unha e carne para a vida toda. Meus filhotes me fitavam com um olhar de amor genuíno, não precisavam dizer nada, bastava estarem por perto, para mim já era mais que o suficiente. Eu não estaria sozinho nos meus últimos momentos e isso me confortava imensamente.

Retornei ao passado, para quando conheci a rosa mais preciosa do meu jardim. Foi no ápice de todo o caos do dia a dia que o amor floriu para mim. Bastou uma troca de olhares e um breve riso para que nos apaixonássemos, o gesto contém uma linguagem incapaz de ser traduzida mas que diz muito mais que as rasas palavras. Num segundo encontro, traçado ao acaso no meio do expediente, dirigi a ela uma minúscula frase: “cinema hoje às oito?”. Ela apenas acenou positivamente com um largo sorriso estampado no rosto. Então, o cinema tornou-se um namoro, que se transformou num anel de compromisso e depois numa aliança. Não tardou para morarmos juntos e termos dois lindos filhos. Contraditoriamente, a vida passa lentamente mas numa velocidade assustadora. Vimos nossas crias aprenderem a andar, a correr, a dirigir… Num piscar de olhos, o primogênito já estava de barba e piercing na orelha e a filha mais nova já tinha fechado um dos braços com tatuagens. Achávamos lindo tudo o que faziam, eu e a minha rosa combinamos de nunca interferir nas escolhas deles, mas é impossível não se preocupar e se meter um pouco na vida dos filhos, principalmente palpitar sobre seus relacionamentos. Os jovens (não mais tão jovens) raramente escutam a voz da experiência e acabam quebrando a cara. No entanto, sabemos que a melhor forma de aprendizado é a queda.

Lhes relato, com um misto de saudade, alegria e lágrima que, embora esteja caminhando pelo corredor da morte, tenho a sensação de dever cumprido. Enquanto vejo meu jardim, sozinho, converso em silêncio com as plantas, acredito que ali estão todos os conselhos que preciso. Parti para minha última missão, revisitar pessoalmente as lembranças gostosas do passado. Primeiramente, peguei o telefone para entrar em contato com algumas pessoas que o tempo tratou de afastar de mim, mas que um dia já estiveram bastante presentes em meu cotidiano. Precisava voltar no tempo, e a melhor máquina para essa façanha é uma boa conversa.

Para tanto, visitei o Alberto, um antigo colega de trabalho. Em épocas remotas, gostávamos da mesma mulher e competíamos para ver quem conseguiria conquistá-la. Saí campeão, apesar de desprovido de beleza externa, nada derrota uma boa lábia. Um ano mais tarde, terminei o namoro com a dita moça. Acabou que, talvez, tivesse sido melhor ela ter ficado com o Alberto mesmo. Após pouco tempo, encontrei minha rosa e entendi por que o acaso quis romper aquele meu relacionamento. Disse tudo isso ao Alberto e ele me chamou de bastardo e que por culpa minha tinha ficado para titia. Rimos tanto que até senti uma fisgada no abdômen. Será que onde vou terá gargalhada de doer a barriga? Meu maior medo é que após a morte não seja possível rememorar os pequenos prazeres da vida. Por fim, falei ao Alberto de minha condição. Ele não exprimiu nenhuma palavra, apenas levantou-se e me abraçou forte. Pude ouvir suas fungadas e senti umas gotículas quentes em meu ombro. “Devíamos ter nos encontrado e nos falado mais vezes”, disse ele quando eu já estava indo embora.

Marquei um encontro com todos os meus conhecidos em um restaurante, queria ver por um último instante a face daqueles que caminharam junto comigo nessa jornada. A mesa ficou enorme e foi maravilhoso abraçar e papear com cada um dos presentes. Ao final, proferi um discurso breve, como uma carta que eu queria que repousasse na gaveta de cada um que ali estava. “Dessa vida a gente não leva dinheiro, não leva o carro do ano ou celular que está na moda. Não levamos o relógio de ouro nem a mansão mais cara. No entanto, deixamos muita coisa… Vamos deixar saudades e legar aos nossos descendentes e amigos parte de tudo o que aprendemos, parte de tudo aquilo que integra nossa alma. Tudo o que fica, no fim, são os momentos que criamos. E é isso. Hoje estou criando esse momento especial para carregar junto comigo e para plantar dentro de todos vocês. Lembrem de hoje, por favor, lembrem de mim. Enquanto não me esquecerem, viverei para sempre. Amo todos vocês!”. Seguiu-se então muitos aplausos, beijos e abraços. Eu poderia ter morrido ali mesmo naquela hora, partiria sorrindo.

Obviamente, não pude deixar de ter uma prosa com a minha amada. Fui ao cemitério onde ela repousava. Temia não a encontrar numa outra possível vida. Talvez a morte tivesse fechado de vez o livro de nossa história de amor. Sentei-me ao lado de sua lápide. Era triste que de uma pessoa tão alegre e vívida tivesse sobrado, neste mundo, apenas aquele pedaço de pedra. Lembrei das vezes que dançamos, incontáveis vezes havia pisado nos pés dela. A relembrei de como foram gostosas nossas viagens à dois. Rememorei nosso primeiro encontro, narrando a maravilhosa sensação de ter tocado sua mão macia e seus lábios quentes. Não poder sentir novamente o calor dela era o que mais me torturava. Depois de sua morte, o outro lado da minha cama amanhecia gélido como o inverno. “Espero te encontrar aí do outro lado”, disse à minha rosa. “E, se não for para ser, minha querida, saiba que te amei da forma mais sincera e completa que a vida poderia permitir”. Não sei se minha mensagem chegaria à destinatária, os correios do além não mandam avisos de recebimento. Só restava me apegar à pouca fé que havia sobrado em mim.

Rico ou pobre, bom ou mau, estamos todos fadados ao mesmo destino, não há nada mais imparcial que a morte. Todas as noites eu orava para que no dia seguinte milagrosamente acordasse curado, ainda que nunca tenha de fato acreditado em Deus. Rezava para qualquer entidade que pudesse acolher minhas preces. No entanto, ao abrir os olhos pela manhã, as dores aos poucos despontavam outra vez.

Certo dia, pela primeira vez em muito tempo, acordei sem sentir dor. Dizem que quando estamos acometidos por uma mazela grave pode haver uma melhora súbita antes do momento crítico. Eu tive a impressão de que era exatamente isso o que estava ocorrendo comigo. Aproveitei essa bênção divina para sugar o néctar da vida antes de minha flor murchar. Fui ao meu jardim, cerrei os olhos, respirei fundo, senti o cheiro de tudo ao redor, ouvi cada som, desde um cântico de pardal distante até o motor de um carro que passava veloz na rua. Senti meu coração bater fracamente e o sol roçar na minha pele. O paraíso era aquilo, ter a chance de viver e sentir. Devemos aproveitar a oportunidade de estar aqui nesse planeta solitário da Via Láctea, sentindo o calor de uma estrela a cento e quarenta e nove mil quilômetros de distância, a fonte de toda a vida na Terra. Quando a lua pôs o sol para dormir, fui deitar um pouco. Nesse momento, senti uma fisgada violenta no abdômen, um ardor no peito e uma coceira na garganta. Tossi e algumas gotículas de sangue respingaram sobre o chão. Minha hora havia chegado.

Enquanto era carregado na maca às pressas, estava rodeado de caos, todas as coisas giravam confusamente perante meus olhos, até que apaguei. Quando acordei, estava numa sala de UTI e meus filhos olhavam para mim com olhares marejados e desesperados. Os dois esboçaram uma expressão esperançosa quando abri os olhos. Não tinha mais força para falar, mexia lentamente a boca em vão e verbalizava com os olhos na esperança de que minha mensagem fosse recebida. A mão do destino já se aproximava com a sua tesoura de poda. Com os olhos já turvos de lágrimas, não de tristeza, mas de saudade, segurei nas mãos de meus filhos com o restante de força que me restava, estava um de cada lado da cama. Ouvia a canção de seus pulsos e sentia a quentura de seus corpos enquanto o meu lentamente esfriava. A minha música congênita, aquela que nasce com a gente num tamborilar constante dentro do peito, findava. A última folha havia secado e despencava em direção a um infinito desconhecido. As máquinas apitavam num bipe contínuo e o som que ingressava em meus ouvidos vagarosamente foi silenciando. Cumpri o meu papel, semeei minhas sementes na Terra. Onde as enterrarão? Espero que finquem no coração de cada um daqueles por qual passei, para que eu floresça dentro deles, no jardim eterno da lembrança…

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Adriel Alves

Poeta e cronista. Integrante do portal Fazia Poesia. Instagram: @purapoesiaa. Gostou do conteúdo? Se inscreva no link: https://adriel-alves.medium.com/subscribe