Viveu Muito, Viveu Pouco

mão velha e enrugada sobre a cama. Velhice, vida, viver, vivência, idoso.

Conheci um senhor idoso que só chegou a ver o mar depois dos 80 anos, mesmo morando em uma cidade litorânea a maior parte de sua vida. Não tinha muito interesse no lado de fora de sua residência, preferiu passar o resto dos seus dias em seu escritório a mexer nos discos, revistas, livros… Aquele pequeno cômodo era o seu universo. O miúdo espaço onde via as horas passarem era ocupado por memórias tangíveis: dormiam em estantes de ferro os seus bolachões, antigos discos que continham somente uma música por lado; as revistas de teor político, de fofoca e eróticas; as fitas e DVDs de filmes que marcaram época e os antigos cartazes de cinema, que sempre foi a sua paixão. Seu leito era rodeado de pôsteres de filmes, nos quais admirava a beleza incorruptível das estrelas de Hollywood: Brigitte Bardot, Marilyn Monroe, Audrey Hepburn, Elizabeth Taylor, Sophia Loren, e muitas outras. Eram as estrelas da noite, algumas já deixaram a existência mas não largaram o brilho, e iluminavam os dias daquele velho senhor.

Ele viveu arduamente por muitos anos. Tinha uma memória de elefante e penetrava nas horas com uma fala arrastada, contando de sua juventude aos filhos e netos, como se aquele corpo envelhecido permeando o presente fosse só um detalhe, afinal, a carne é só uma ferramenta para concretizar as vontades da essência. A lembrança é uma máquina do tempo que vem instalada dentro de todos nós.

Outra paixão do velho era o seu jardim, de frondosas folhas e glamorosas rosas. Apesar das mazelas da “melhor idade”, se metia a se ajoelhar no chão de cimento para sujar a mão de terra, podar as plantas ou admirar as flores, numa aptidão física de fazer inveja aos mais jovens. Por fim, dizia que viveria até os 100 anos para que lhe preparassem uma grande festa, mas a vida tem os seus próprios planos e pediu à morte que o levasse para a casa de São Pedro, que era como a sua falecida esposa chamava o paraíso.

Não sei se ele abrigou arrependimento por ter levado uma vida tão reclusa, mas, sinceramente, acho que não. Cada um cria sua própria cela e joga a chave fora. Há quem viva em um ano mais do que alguns vivem em cem, mas a vida não se mede por números. O que é uma vida boa? Para nós pode ser viajar o mundo e para outra pessoa pode ser ficar em paz no conforto do lar. A beleza da vida é que ela é uma roupagem única, a vestimenta de um não veste o outro. Não há norma ou o manual Como Viver Corretamente, ainda que muitos o vendam a quem ousa acreditar nas instruções. Vive corretamente quem se embriaga da fonte da felicidade, isso é preciso afirmar.

“Navegar é preciso, viver não é preciso”, diz a célebre frase. É isto, navegamos em um oceano imenso e desconhecido, sem bússola, sem mapa, somente a nossa vela balançando aos quatro ventos do destino, ora acendendo, ora apagando. No desbravar dos mares revoltos, esbarramos ao acaso em tesouros, em monstros e em terra firme. A cada dia enfiamos a mão na Caixinha de Surpresas e tiramos um acaso que, mesmo com todas as escolhas que julgamos certas, ainda poderá nos desagradar.

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Poeta e escritor. Integrante do portal Fazia Poesia. Instagram: @purapoesiaa. Gostou do conteúdo? Se inscreva no link: https://adriel-alves.medium.com/subscribe

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